Mocambo

7 de nov. de 2016



Legitimo de Braga
Mocambo
“Tenhamos fé nas instituições, se elas valem alguma coisa não há de ser por falta de escravos que hão de cair.”    (Visconde de Jaguaribe)
Ao ter em minhas mãos o suntuoso convite  do sindicato dos comerciários de Iguatu para a inauguração da sua nova sede, em coquetel  que acontecerá na noite de 05 de novembro, convite que me foi entregue por um de seus diretores o Sr. Greiutonyles Gouvêa ,  o que logo me correu a mente foi as palavras da futura primeira dama da cidade de São Paulo, a Sra. Bia Doria em relação aos seus funcionários:
_ Todos moravam em barracas e nem tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes a eles, um plano de saúde bom. Hoje eles se sentem felizes. Ate se acham artistas porque são meus assistentes...
Quando li esta afirmação saída da boca da esposa do prefeito eleito pela cidade de São Paulo, cidade berço dos sindicatos brasileiros, lembrei uma pequena historia que relato agora:
Nos dias que antecederam a Lei Aurea, um negro que a muito juntava migalhas com o intuito de comprar sua carta de alforria, teve êxito, e de posse desta, abandonou a antiga fazenda onde era escravo, passando a morar na Vila próxima, onde diariamente ia a praça, cantar os horrores da escravidão, tornando-se um eloquente defensor da causa. Avisado pelo delegado da Vila o antigo senhor mandou que o prendesse e no domingo depois da missa, foi visita-lo na cadeia:
_ Negro! Tu não já tem a tua liberdade! O que mais tu quer!?
_ Não meu senhor grande, eu pensei que agora livre eu poderia defender os meus...
_ Você o que!?
_ Eu pensei...
_ Você pensou!!! Delegado, venha ate aqui! No dia que esse negro explicar ao senhor o que é pensar, você solte ele.
E foi-se para a fazenda.

O pensamento politico é a melhor das argamassas na construção dos edifícios sociais. Onde não entra o pensamento politico é precária a segurança da conquista realizada. Problemas aparentemente resolvidos como a escravatura, hoje tem nome e aspectos novos que demandam exames e soluções. A tragédia do negro escravo ontem, pode-se afirmar, é a tragédia do trabalhador brasileiro hoje, com exceção dos “ capitães do mato”. A fama de tolerante que nossa sociedade goza,  como tenta demonstrar a fina flor da elite paulistana nas palavras da senhora Bia Doria, com frases tipo: _ Eu me dou muito bem com as pessoas mais humildes. As vezes é só um aperto de mão, as vezes elas querem um abraço...Surgiu toda ela na passividade dos nossos escravos. As senzalas desapareceram, a carta de alforria satisfez a classe trabalhadora porque os livrava do açoite do feitor e os permitia escolher um amo. A presumida liberdade porém, não os ensinou que poderiam ser patrões, concorrendo com seus antigos senhores em todos os ramos da atividade humana. Os mais de três séculos de escravidão deixaram indeléveis no inconsciente do escravo a submissão e a passividade, as senzalas  desapareceram, mais existem as “ casas grandes”, onde só entram como criados, abrem portas, aceitam gorjetas. As suas mulheres são lavadeiras, cozinheiras, copeiras, arrumadeiras que frequentam sociedades dançantes ou blocos carnavalescos onde se desancam ao som dos Bum bum paticumbum prucurundum

Antigamente no tempo do cativeiro, os membros da raça se reuniam  para reagir, ainda se reajustavam para lutar. Havia o mocambo, estabelecendo a solidariedade na revolta, e a senzala, renovando-a no sofrimento. Hoje, o trabalhador só se reúne para recreação, minguam os pensamentos libertários. O patrimônio moral, o patrimônio sentimental, dissolve-se na materialidade bruta, numa inconsciência alarmante e deplorável. A escravidão do seu corpo desapareceu, mas ele continua cativo de alma, submisso de espirito, e temendo, ainda involuntariamente, o feitor e o senhor. Isto ficou provado aqui e além quando a cidade de São Paulo elegeu em primeiro turno o Sr. João Doria do PSDB, enquanto que aqui na terrinha, lutando contra a degradante politica do PPP, que para pobre preto e puta só pano, pão e peia, o candidato do sindicato dos comerciários, que tem aproximadamente, 2.300 sindicalizados, candidato a uma cadeira no legislativo municipal, o Sr.Greiutonyles Gouvêa tirou inconcebíveis 196 votos.
Aplaudamos, todo um passado de lutas e de conquistas deste sindicato, desde a construção do clube dos comerciários, a construção do seu parque aquático, da sua antiga sede na rua Guilherme de Oliveira e deste majestoso palácio dos comerciários, hoje inaugurado na eterna 27 de novembro, rua que homenageia a liberdade de nossa terra, liberdade agora tão em risco com as medidas implantadas e  por implantar deste governo golpista. haja visto, a famigerada PEC 241. Liberdade que deve ser defendida e pregada por livres pensadores que gritem que na terra só se respeita a força! Portanto, este sindicato tem de se munir de guias, de orientadores, de um Moises que os reúna, os discipline e os conduza a terra prometida, onde possam tirar de si mesmos, pelo sacrifício, pelo estudo, pelo trabalho uma vida melhor. Porque o pão da escravatura amarga.
                                         Tenho dito.
                           Cicero Correia Lima.

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