Legitimo de Braga
Mocambo
“Tenhamos fé nas instituições, se elas valem alguma coisa não há de ser
por falta de escravos que hão de cair.”
(Visconde de Jaguaribe)
Ao ter em minhas mãos o suntuoso
convite do sindicato dos comerciários de Iguatu para a inauguração da sua nova
sede, em coquetel que acontecerá na
noite de 05 de novembro, convite que me foi entregue por um de seus diretores o
Sr. Greiutonyles Gouvêa , o que logo me
correu a mente foi as palavras da futura primeira dama da cidade de São Paulo,
a Sra. Bia Doria em relação aos seus funcionários:
_ Todos moravam em barracas e nem
tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes a eles, um plano de
saúde bom. Hoje eles se sentem felizes. Ate se acham artistas porque são meus
assistentes...
Quando li esta afirmação saída da
boca da esposa do prefeito eleito pela cidade de São Paulo, cidade berço dos
sindicatos brasileiros, lembrei uma pequena historia que relato agora:
Nos dias que antecederam a Lei
Aurea, um negro que a muito juntava migalhas com o intuito de comprar sua carta
de alforria, teve êxito, e de posse desta, abandonou a antiga fazenda onde era
escravo, passando a morar na Vila próxima, onde diariamente ia a praça, cantar
os horrores da escravidão, tornando-se um eloquente defensor da causa. Avisado
pelo delegado da Vila o antigo senhor mandou que o prendesse e no domingo
depois da missa, foi visita-lo na cadeia:
_ Negro! Tu não já tem a tua
liberdade! O que mais tu quer!?
_ Não meu senhor grande, eu
pensei que agora livre eu poderia defender os meus...
_ Você o que!?
_ Eu pensei...
_ Você pensou!!! Delegado, venha
ate aqui! No dia que esse negro explicar ao senhor o que é pensar, você solte
ele.
E foi-se para a fazenda.
O pensamento politico é a melhor das argamassas na construção dos edifícios sociais. Onde não entra o pensamento politico é precária a segurança da conquista realizada. Problemas aparentemente resolvidos como a escravatura, hoje tem nome e aspectos novos que demandam exames e soluções. A tragédia do negro escravo ontem, pode-se afirmar, é a tragédia do trabalhador brasileiro hoje, com exceção dos “ capitães do mato”. A fama de tolerante que nossa sociedade goza, como tenta demonstrar a fina flor da elite paulistana nas palavras da senhora Bia Doria, com frases tipo: _ Eu me dou muito bem com as pessoas mais humildes. As vezes é só um aperto de mão, as vezes elas querem um abraço...Surgiu toda ela na passividade dos nossos escravos. As senzalas desapareceram, a carta de alforria satisfez a classe trabalhadora porque os livrava do açoite do feitor e os permitia escolher um amo. A presumida liberdade porém, não os ensinou que poderiam ser patrões, concorrendo com seus antigos senhores em todos os ramos da atividade humana. Os mais de três séculos de escravidão deixaram indeléveis no inconsciente do escravo a submissão e a passividade, as senzalas desapareceram, mais existem as “ casas grandes”, onde só entram como criados, abrem portas, aceitam gorjetas. As suas mulheres são lavadeiras, cozinheiras, copeiras, arrumadeiras que frequentam sociedades dançantes ou blocos carnavalescos onde se desancam ao som dos Bum bum paticumbum prucurundum
Antigamente no tempo do
cativeiro, os membros da raça se reuniam
para reagir, ainda se reajustavam para lutar. Havia o mocambo,
estabelecendo a solidariedade na revolta, e a senzala, renovando-a no
sofrimento. Hoje, o trabalhador só se reúne para recreação, minguam os
pensamentos libertários. O patrimônio moral, o patrimônio sentimental,
dissolve-se na materialidade bruta, numa inconsciência alarmante e deplorável.
A escravidão do seu corpo desapareceu, mas ele continua cativo de alma,
submisso de espirito, e temendo, ainda involuntariamente, o feitor e o senhor.
Isto ficou provado aqui e além quando a cidade de São Paulo elegeu em primeiro
turno o Sr. João Doria do PSDB, enquanto que aqui na terrinha, lutando contra a
degradante politica do PPP, que para pobre preto e puta só pano, pão e peia, o
candidato do sindicato dos comerciários,
que tem aproximadamente, 2.300 sindicalizados, candidato a uma cadeira no
legislativo municipal, o Sr.Greiutonyles Gouvêa tirou inconcebíveis 196 votos.
Aplaudamos, todo um passado de
lutas e de conquistas deste sindicato, desde a construção do clube dos
comerciários, a construção do seu parque aquático, da sua antiga sede na rua
Guilherme de Oliveira e deste majestoso palácio dos comerciários, hoje
inaugurado na eterna 27 de novembro, rua que homenageia a liberdade de nossa
terra, liberdade agora tão em risco com as medidas implantadas e por implantar deste governo golpista. haja
visto, a famigerada PEC 241. Liberdade que deve ser defendida e pregada por
livres pensadores que gritem que na terra só se respeita a força! Portanto,
este sindicato tem de se munir de guias, de orientadores, de um Moises que os
reúna, os discipline e os conduza a terra prometida, onde possam tirar de si
mesmos, pelo sacrifício, pelo estudo, pelo trabalho uma vida melhor. Porque o
pão da escravatura amarga.
Tenho
dito.
Cicero Correia Lima.

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